O vape virou moda. A rouquidão também.
Nos últimos anos, o cigarro eletrônico se tornou um fenômeno entre jovens e adultos no Brasil. Dispositivos coloridos, sabores como morango, menta e creme brulée, e a ideia de que seriam menos prejudiciais do que o cigarro convencional fizeram o uso explodir. Segundo dados recentes, o consumo de vapes cresceu 600% nos últimos seis anos no Brasil, com adolescentes representando cerca de 70% dos usuários.
O problema é que junto com o crescimento do vape, outro número também subiu: o de pessoas reclamando de rouquidão.
Uma pesquisa da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), publicada na revista Audiology – Communication Research, analisou buscas no Google entre 2014 e 2024. Toda vez que as pesquisas por “vape” aumentavam, as buscas por “rouquidão” subiam junto. Uma correlação que não pode ser ignorada.
O que exatamente o vape faz com a sua laringe? E quando a rouquidão deve ser levada a sério?
Os Drs. Augusto e Márcio Abrahão, especialistas em otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça e pescoço da Clínica AM, respondem essas perguntas neste artigo.
O que acontece com a laringe quando você usa vape?
O vapor do cigarro eletrônico é inalado pela boca, passa pela faringe, atravessa a laringe e chega aos pulmões. Nesse caminho todo, as pregas vocais ficam diretamente expostas aos compostos químicos presentes no vapor.
Esse vapor não é inofensivo. Ele contém nicotina em concentrações frequentemente maiores do que no cigarro tradicional, propilenoglicol e glicerina que irritam as mucosas ao se aquecerem, acroleína (um irritante respiratório potente), partículas ultrafinas de metal liberadas pelo aquecimento do dispositivo, e aromatizantes químicos que dão os sabores, mas agridem a laringe.
O que acontece nas pregas vocais
As pregas vocais são estruturas muito delicadas, recobertas por uma mucosa fina que vibra centenas de vezes por segundo durante a fala. Com a exposição repetida ao vapor do vape, essa mucosa entra em processo de inflamação crônica, silencioso e progressivo.
O sinal mais imediato é a rouquidão: a voz fica áspera, cansada, sem potência. Com o tempo, surgem tosse seca persistente, sensação de catarro preso na garganta, fadiga vocal, dor ao falar e dificuldade para alcançar notas agudas ou graves.
O que o uso prolongado provoca
A exposição contínua ao vapor aquecido resseca e fragiliza a mucosa laríngea, comprometendo sua capacidade de se defender e se regenerar. Com o passar do tempo, os danos se aprofundam:
Laringite crônica: inflamação que se torna permanente e altera a voz de forma duradoura.
Nódulos, pólipos ou cistos nas pregas vocais: lesões que deformam a vibração e exigem tratamento especializado.
Edema de Reinke: acúmulo de líquido nas pregas vocais, historicamente associado ao tabagismo e cada vez mais relatado em usuários de vape.
Alterações acústicas da voz: mudanças mensuráveis na frequência e qualidade vocal, identificáveis em exames especializados.
“A laringe é um dos órgãos mais sensíveis do trato respiratório. Qualquer substância inalada que cause irritação vai se manifestar na voz. O vape, por concentrar substâncias tóxicas em altas temperaturas, é particularmente agressivo para as pregas vocais.” Dr. Augusto Abrahão, otorrinolaringologista, Clínica AM
Por que adolescentes correm risco maior
A laringe, as pregas vocais e o trato vocal ainda estão em desenvolvimento na adolescência. Expô-los a agentes irritantes nessa fase pode interferir no desenvolvimento normal da laringe, causar lesões que comprometem a voz na vida adulta e gerar dependência de nicotina antes que o sistema nervoso esteja plenamente maduro.
A concentração de nicotina nos vapes é significativamente maior do que no cigarro tradicional, tornando o vício mais rápido e mais difícil de reverter. Segundo o INCA (Instituto Nacional do Câncer), usuários de vape têm 3 vezes mais chances de experimentar o cigarro convencional e mais de 4 vezes mais chances de se tornarem fumantes.
Quando a rouquidão precisa de avaliação médica
A rouquidão sempre indica que algo não está funcionando bem nas pregas vocais. Ela nunca deve ser ignorada, especialmente nos seguintes casos:
- Persiste por mais de 15 dias sem melhora
- Aparece de repente, sem gripe ou resfriado que justifique
- Vem acompanhada de dor ao engolir ou ao falar
- Há sangue na saliva ou expectoração
- A voz muda de forma progressiva ao longo de semanas
- Existe sensação persistente de algo preso na garganta
Se você usa vape e percebeu qualquer uma dessas alterações, não adie a avaliação com um otorrinolaringologista especializado em laringe.
“Na prática clínica, temos visto cada vez mais usuários de vape com lesões nas pregas vocais que poderiam ter sido tratadas com mais facilidade se detectadas cedo. A rouquidão não é frescura, é um sinal.” Dr. Márcio Abrahão, cirurgião de cabeça e pescoço, Clínica AM
Existe risco de câncer de laringe?
Sim, e essa é uma das preocupações mais sérias dos especialistas.
Os estudos de longo prazo ainda estão em andamento, já que o vape é uma tecnologia relativamente recente. Mas os sinais já existem. O câncer de laringe está historicamente associado ao tabagismo, ao consumo de álcool e à exposição crônica a substâncias irritantes e cancerígenas. O vape preenche esse terceiro critério sem dúvida.
Pesquisas internacionais já associam o uso frequente do dispositivo a inflamações nas vias aéreas superiores, piora de quadros de laringite e faringite, e lesões pré-malignas na mucosa laríngea.
O principal sintoma do câncer de laringe é a rouquidão persistente. Qualquer alteração vocal que não melhore em até duas semanas precisa ser investigada com urgência.
O que a ciência já sabe sobre vape e voz
O campo de pesquisa está crescendo, mas já há dados suficientes para preocupar:
O estudo brasileiro da UFS e UFPB (2025) identificou correlação estatística entre o crescimento das buscas por “vape” e por “rouquidão” no Google ao longo de uma década. Pesquisas internacionais documentam inflamação das vias aéreas superiores, laringite e faringite como condições frequentes em usuários de vape. Relatos clínicos apontam fadiga vocal, rouquidão e redução da extensão vocal como queixas recorrentes entre quem usa o cigarro eletrônico. O INCA classifica os vapes como dispositivos com risco direto de dependência, doenças respiratórias, cardiovasculares e câncer.
Não existe nível seguro de inalação de vapor químico para a laringe.
Perguntas frequentes
O vapor do vape é realmente menos prejudicial do que a fumaça do cigarro? Não necessariamente, especialmente para a laringe. O vape não produz fumaça de combustão, mas o vapor aquecido que libera contém substâncias irritantes, partículas ultrafinas e compostos cancerígenos que agridem diretamente as pregas vocais.
Vape sem nicotina é seguro para a voz? Não. Mesmo sem nicotina, o vape contém propilenoglicol, glicerina aquecida e aromatizantes que irritam as pregas vocais. A ausência de nicotina reduz o risco de dependência, mas não protege a laringe.
A rouquidão causada pelo vape tem cura? Depende do grau da lesão. Inflamações leves costumam melhorar com a cessação do uso e tratamento adequado. Lesões mais avançadas, como nódulos e pólipos, podem exigir procedimentos cirúrgicos. Por isso, a avaliação precoce é tão importante.
Com que frequência devo consultar um especialista se uso vape? O ideal é fazer pelo menos uma avaliação laringológica por ano. E de forma imediata se surgir rouquidão, tosse persistente ou dor de garganta.
O vape piora a voz de quem depende dela profissionalmente? Sim, de forma significativa. Professores, cantores, locutores e advogados já submetem a laringe a uma demanda maior no dia a dia. O vape adiciona um fator de agressão constante sobre uma estrutura que já trabalha no limite.
Sua voz está te avisando
O vape pode parecer inofensivo: design moderno, sabores atrativos, sem o cheiro do cigarro. Mas na sua laringe, o impacto é real e progressivo. A rouquidão que começa discreta pode ser o primeiro sinal de uma inflamação crônica, ou de algo mais sério.
Parar de usar o vape é a medida mais eficaz para proteger a sua voz. Se você já percebeu alguma alteração, não adie a avaliação.
Agende sua avaliação com o Dr. Augusto Abrahão
O Dr. Augusto Abrahão, especialista em laringe e cirurgia de cabeça e pescoço, realiza avaliação completa com laringoscopia para identificar qualquer alteração nas pregas vocais antes que ela evolua.
👉 Agende sua consulta na Clínica AM
Este artigo foi elaborado pelos Drs. Augusto e Márcio Abrahão com base nas evidências científicas mais recentes sobre os efeitos do cigarro eletrônico na saúde vocal e laríngea. As informações têm caráter educativo e não substituem a avaliação médica individualizada.